Espirro do Besteiro

AUTORA: Vera Margarida Coimbra de Matos
DATA: 2021
TIPOLOGIA: Têxtil entranhado
N.º DE INVENTÁRIO: MF.2021.021
N.º DE CATÁLOGO: #048

Memória Descritiva

Criar uma narrativa de ficção histórica pode ser como ver um filme. Foi o que senti quando criava esta história. A dificuldade maior residiu na identificação do objeto. Meses antes, isso seria facilitado pelo manancial de coisas supérfluas, umas envelhecidas, outras excêntricas, que existia em casa. Quase tudo se foi com uma recente mudança de pousada.

Tudo isto para dizer que o «Espirro de Besteiro» acabou por ver a luz devido à combinação de causas fortuitas com criatividade e alguma idiotice.

Tudo partiu, porém, de um interesse profundo que tenho no Caramulo (vila e serra) devido à sua beleza, ao seu património e à sua história. E também devido a ligações familiares. Para além disso, é, ainda hoje, o principal local de atração do concelho pela natureza, pelo seu passado e pelo Museu do Caramulo. O lugar teria, portanto, de estar representado no núcleo de Besteiros do Museu do Falso.

O têxtil foi encontrado na residência da família. É velho. As manchas são autênticas.

A folha de papel, proveniente de um caderno velho, foi encontrada numa brochura dos anos 1930 que tenho em casa. Encontrei-a há meses. Lembrei-me de utilizá-la enquanto jantava. Só então decifrei a escrita cursiva que alguém ali abandonara: «nome do doente». Providência ou não, adequava-se à história: a folha iria pertencer a Abel de Lacerda, o diretor da Estância Sanatorial do Caramulo e o achador do «Espirro do Besteiro».

O esboço foi desenhado sobre a folha de papel a carvão.

A Falsidade Explicitada

Todas as personagens referidas na história, com as respetivas caraterizações, são verídicas. São naturais do concelho (José Júlio César, Amadeu Ferraz de Carvalho, António Almiro do Vale, Jerónimo Lacerda e Abel de Lacerda) ou tiveram ligações a Abel de Lacerda e ao processo de criação do Museu do Caramulo (Reynaldo dos Santos, Luís Reis Santos e Jacques Kugel).

O jornal O Comércio de Viseu é real e se José Júlio César assinou, de facto, vários artigos no periódico, aquele citado na história é uma invenção.

Reais são também o Solar de Molelos e a Estância Sanatorial do Caramulo. Foi esta um local de tratamento da tuberculose pulmonar excecional em muitos aspetos. Vários equipamentos médicos ali utilizados foram produzidos pela Siemens, nomeadamente os aparelhos de raios X.

A Exposição de Arte Sacra do Concelho de Tondela é também verídica, bem como o local da sua realização (o Salão de Exposições da Junta de Turismo do Caramulo) e a data.

O «Espirro do Besteiro» é uma falsidade. Também não há, na região, a ideia do besteiro herói. Há, sim, a ideia lendária de que um numeroso e muito valoroso coletivo de besteiros existira nestas terras, daí terem recebido o nome Terras de Besteiros. É também um facto que vários povos, ao longo da História, têm atribuído propriedades propiciadoras ao espirro. Na Antiguidade, por exemplo, os gregos consideravam o espirro como um bom presságio enviado pelos deuses. Já na Hungria, é entendido como a confirmação da veracidade de uma afirmação por Deus. Eis porque transformámos o «Espirro do Besteiro» num talismã e o relacionámos com o florescimento de um local de tratamento da tuberculose pulmonar. Se o ato de espirrar propaga a doença, o «Espirro do Besteiro» ajudaria a controlá-la por favorecer o desenvolvimento da Estância Sanatorial do Caramulo.

O esquema dos motivos bordados desaparecidos é outra falsidade. Contudo, os pictogramas são reais e fazem parte das instruções universais de lavagem, aparecendo, de facto, nas etiquetas das peças de vestuário com o significado indicado. O círculo indica que não se pode lavar a seco. A tina de água indica que não se pode lavar com água.

Para saber mais:

Carvalho, Amadeu Ferraz de – A Terra de Besteiros e o atual concelho de Tondela. Tondela: Câmara Municipal, 1981.

Matos, Vera – O Museu do Caramulo. Constituição do Núcleo Original da Coleção. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2019. Dissertação de Mestrado. URL: http://hdl.handle.net/10316/93345 

 

Sobre Vera Margarida Coimbra de Matos

Nascida em Viseu e criada entre o Botulho e Parada do Sal, tem andado por Portugal e pelo estrangeiro à medida que a vida vai acontecendo. Vive agora em Tondela. Licenciada em História, mestre em Estudos Sobre a Europa, mestre em Museologia e Património Cultural, doutorada em História Contemporânea. Alma Mater: Universidade de Coimbra. Trabalha no Município de Tondela e desenvolve projetos na área da cultura, do património e da museologia. Tem vários trabalhos publicados.

Esta peça foi criada para o Museu do Falso e teve como Parceiro Institucional

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