Os Estudos

AUTORA: Raquel Coimbra
TIPOLOGIA: Desenho
DATA: 2014
N.º DE INVENTÁRIO: MF.2014.001

Memória Descritiva

A obra apresentada é composta por quatro páginas que pretendem simular ser pertença de um caderno de esboços de uma artista da época do Renascimento, a qual teria feito parte da oficina de Grão Vasco, tendo os seus desenhos servido de base para as pinturas de Vasco Fernandes.

Na época, a criação de uma imagem era muitas vezes realizada por um artista e a pintura, propriamente dita, por outro; o que foi revelado através do método de radiografia em vários painéis do Retábulo do altar-mor da Sé de Viseu.

Este conjunto de painéis foi objeto de análise para o primeiro desenho. Aqui valorizei a perspetiva. A terceira dimensão ou profundidade é transmitida através de regras geométricas da linguagem das projeções cónicas.

A utilização de gravuras pelos pintores terá sido uma prática comum nas oficinas deste período, sendo também usual a existência de um livro de modelos que reunisse pequenos desenhos de cabeças de figuras humanas femininas e masculinas. Posto isto, aparece a inspiração para o segundo desenho a grafite, em que uma das mulheres é a representação de Santa Margarida do Retábulo do Pentecostes da Sé de Viseu.

No painel de Cristo em casa de Marta, Vasco Fernandes utilizou de forma muito direta a gravura da Melancolia gravada em Nuremberga por Albrecht Dürer. Essa opção iconográfica foi o mote para o desenho de Maria que está inacabado, uma opção propositada, não estando por isso assinado. O desenho que é precedente a este, quer mostrar a evidente referência que Dürer foi para a Oficina de Grão Vasco.

Também a assinatura da artista se inspira em Dürer. O nome, Maria Eduarda, é uma homenagem à minha Mãe (como todo o artista, tenho as minhas referências que servem de modelos).

O suporte utilizado, o papel Fabriano, confere realismo, dada a sua existência já nessa época. Este foi sujeito à ação da luz e do envelhecimento através do café, por forma a ser mais convincente. Quanto à técnica, utilizei a tinta-da-china, caneta de aparo e grafite, de modo a evidenciar o cuidado do traço da época.

Estes desenhos são fruto de uma investigação de pinturas e desenhos da época, com o objetivo de encontrar particularidades que pudessem ser falseadas. Dado que se trata de uma escola/oficina bastante estudada, construir a falsidade da história da descoberta destes desenhos, deu muito que pensar e riscar, mas também um enorme prazer…

A Falsidade Explicitada 

O Museu Grão Vasco possui, na sua colecção de pintura, um significativo conjunto de obras de Vasco Fernandes, o Grão Vasco, mestre pintor do Renascimento que se notabilizou na produção artística nacional, justificando assim a designação que o museu viria a assumir em 1916, por ocasião da sua fundação. Para além daquelas obras de autoria incontestada, o museu possui outras onde o envolvimento dos seus colaboradores e discípulos é hoje reconhecido, tornando-se esta oficina de Viseu responsável pela produção de obras que marcariam a pintura portuguesa do século XVI.

Durante séculos perdurou a ideia errónea da exclusividade de autoria de Vasco Fernandes para esta pintura antiga, que é hoje contestada, em absoluto, graças a um trabalho minucioso de investigação e análise do processo criativo, das soluções de composição, e dos procedimentos técnicos que caracterizam cada autor e que cada quadro apresenta. Com efeito, estas obras de propósito e dimensões retabulares, eram sobretudo trabalhos colectivos e de parceria entre mestres, com o envolvimento de múltiplos colaboradores e oficiais. Nos retábulos de Viseu identificam-se diferentes autorias, como a de Francisco Henriques, pintor flamengo activo em Portugal, ou ainda dos viseenses Gaspar e António Vaz, para além do próprio Vasco Fernandes.

O processo imitativo de muitas soluções formais, criadas por Vasco Fernandes, reconhece-se nas obras dos seus colaboradores, também elas expostas no Museu Grão Vasco. Mas esta imitação do mestre só atesta a sua genialidade, e é fácil adivinhar que a contemplação das suas obras se tornava, por certo, muito inspiradora. Ainda hoje…

Texto por Museu Grão Vasco

Sobre Tiago Pimentel

Um autor mais conhecido, no meio artístico, pelo seu pseudónimo “João Pestana”. Uma pequena artimanha para diferenciar a dualidade de uma personalidade um tanto complexa. É obcecado por ciência exacta, tendo por isso estudado Engenharia Electrotécnica e Física. Contudo, pode dizerse que é também um bicho de duas caras, devido à sua admiração pelo mundo abstracto da arte onde se entretém a experimentar com a escrita e a fotografia.
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