Proto-Thesaurus Anchieta

AUTOR: José de Anchieta (1534 – 1597; atribuído a)
TIPOLOGIA: Livro
DATA: entre 1580-1595 (datável de)
N.º DE CATÁLOGO: #063
N.º DE INVENTÁRIO: MF.2022.009
PROVENIÊNCIA: José Cirillo (via Fundação Museu Anchieta)

Contextualização

  1. Sobre José de Anchieta:

José de Anchieta (1534 – 1597) nasceu em São Cristóvão da Laguna, no dia 19 de março. Sua família era descendente de nobres. Ingressou na Companhia de Jesus ainda muito jovem, possivelmente influenciado pela leitura de São Francisco Xavier, dedicando-se arduamente aos serviços da ordem.

Anchieta deixa Portugal para dedicar seus dias e serviços às crianças indígenas da selvagem Terra de Santa Cruz (hoje, Brasil). Junto a outros jesuítas, desembarcou em Salvador, na Bahia em 1553. Ali, em apenas três meses, ele aprendeu a língua falada pelos nativos do Brasil e começou a escrever a primeira gramática, a qual seria publicada, em Coimbra, apenas em 1595.  Esse seu estudo linguístico, entretanto, auxiliou poderosamente os jesuítas e todos os missionários que chegariam ao Brasil nos anos seguintes. 

No Brasil, tendo em vistas os seus dotes extraordinários, Anchieta é transferido para a Capitania de São Vicente (atual estado de São Paulo), onde aprimora seu trabalho de evangelização dos povos nativos por meio da língua e de atividades artísticas. Foi o inventor do Teatro Jesuíta, por meio do qual apresentava os ensinamentos cristãos e portugueses de modo lúdico. 

É ordenado sacerdote aos 32 anos e enviado ao Colégio Jesuíta do Rio de Janeiro, dirigido por ele entre 1579 e 1573. Durante aquele período, fundou, em 1569, a povoação de Reritiba (atual cidade de Anchieta, no Espírito Santo, BR). 

José de Anchieta faleceu em 1597. Em 1610, inicia-se o pedido de sua canonização, ocorrida apenas em 1980, três séculos depois. A residência de Reritiba, onde jazem seus restos mortais, tornou-se um Santuário e local de peregrinação nos séculos seguintes, vindo a ser denominado atualmente como o Santuário de Anchieta.

 A partir de 1587, já como Provincial da Cia. de Jesus, Anchieta comanda o Colégio Jesuíta em Vitória (1587 – 1595), quando se recolhe definitivamente em Reritiba, até sua morte (1597). Embora sem desenvolver as funções administrativas em Reritiba, segue dando aulas no colégio de Vitória, para onde caminhava regularmente cerca de 100 quilômetros para seguir nos ensinamentos, ministrando aulas. Esse é hoje um percurso de peregrinações conhecido como Passos de Anchieta.

Estudioso dedicado a escrever, teve durante sua vida publicadas duas das suas principais obras: Os Feitos de Men. de Sá, obra que relata a expulsão dos franceses da costa brasileira, publicado em Coimbra em 1563, obra considerada o primeiro poema épico da América; e A Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, que vai conter os fundamentos da língua tupi-guarani, publicada pela Cia. de Jesus em 1595. A Arte da Gramática objetiva compreender o léxico das diferentes línguas dos troncos tupi e guarani na colônia, a fim de criar uma fusão linguística que permitisse a comunicação com esses povos originários. O tupi-guarani nascia como uma espécie de esperanto, que veio a permitir e facilitar o processo colonizador de modo mais pacífico.

 

  1. Sobre a restauração do Santuário em Anchieta (BR) e as descobertas arqueológicas:

O Santuário de Anchieta, fundado em 1569, passou recentemente por um processo profundo de restauração, iniciado em julho de 2018. As obras de restauração do Santuário ultrapassaram o valor de R$ 10 milhões.

Segundo Meire Lucia Sanmartin, arquiteta responsável pela restauração do edifício e chefe da equipe de resgate arqueológico, foram descobertos 14 objetos arqueológicos, sendo 13 relíquias da história religiosa do Brasil no Estado, como os Relicários de São Tomás de Aquino, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e até um fragmento da Cruz de Cristo. 

Objetos pessoais, como um pequeno livro/caderno de anotações, foram encontrados) em uma câmara secreta da cela de Anchieta. Apesar de ser de couro e papel, está em ótimo estado de conservação. Esse livro revela um pouco do processo de escritura de uma das mais conhecidas obra do Venerável Santo Anchieta, sua gramática da língua brasileira.

Assim, esse amplo processo de restauração, além de recuperar a estrutura arquitetônica, restaurar o imaginário sacro, também descobriu impressionantes peças de valor arqueológico que vão desde peças do cotidiano até ossos de enterramentos no pátio da igreja.  O pequeno livreto, de uso exclusivo do Padre Anchieta, tem seus fólios bem conservados pelo tempo, possivelmente por estar em um compartimento secreto nas pedras da parede da cela do santo. Ao que tudo indica, o pequeno livro é uma revisão de suas andanças pelo litoral capixaba e norte fluminense, durante as quais ele catalogava as línguas dos povos indígenas, buscando construir uma gramática da língua mais falada na costa do Brasil.

 

  1. O pequeno Thesaurus: radiografia de uma língua que revela que o futebol é nativo do Brasil e não da Inglaterra.

O pequeno livro, embora não traga a assinatura do venerável padre, pode ser atribuído a ele, não apenas por ter sido encontrado na cela a ele destinada na Residência de Reritiba, mas, sobretudo, por portar no início do primeiro fólio, o brasão de sua família, logo após o posteriormente ao brasão da Cia. de Jesus. Assim, historiadores e restauradores atribuem a ele a autoria desse rico material que compartilha connosco um pouco do processo de escritura de sua busca por criar o Tupi-guarani – língua que até recentemente era atribuída aos povos nativos brasileiros, teoria hoje desmentida pelos linguistas que evidenciam que ela é apenas a fusão de dois dos maiores troncos linguísticos dos povos originários, mas limitando-se a partes do litoral brasileiro. Entretanto, os séculos seguintes à publicação de sua Gramática (1597) vão popularizá-la como língua dos povos originários.

Uma curiosidade nesse material é que, ao que indica os escritos do santo, o futebol é uma invenção dos povos nativos brasileiro. Já nos anos de 1570-1595, Anchieta descreve um jogo ritualístico entre os homens das tribos que era jogado com seis a doze jogadores que corriam atrás de uma bola podendo usar somente a cabeça e os pés; era jogado em um campo de chão batido dividido em duas metades que era o território de cada um dos grupo que disputavam a pequena bola. Essa curiosidade pode ser vista ao longo de seis páginas dedicadas à descrição dessa atividade entre os povos nativos no século XVI.

 

  1. Sobre o Thesaurus de Anchieta no Museu do Falso em Portugal

Vale a pena destacar que a presença dessa relíquia histórica em Portugal é uma excepcionalidade, pois a obra deixou o Santuário de Anchieta apenas para integrar as ações mundiais comemorativas do ano inaciano de 2021-2022, quando se celebra os 500 anos da Conversão do Santo Inácio de Loyola. 

Para comemorar essa data tão especial para a Igreja e para a Companhia de Jesus, foi lançada uma agenda com os eventos que acontecem simultaneamente no Brasil, Espanha, Portugal e em Roma (Itália). Assim, até o final das atividades dessa celebração, esse tesouro da literatura portuguesa poderá ser visto durante a circulação das obras do Museu do Falso, organizada pelo Projecto Património, sediado na cidade de Viseu, Portugal.

Durante sua estadia em solo português, essa relíquia inaciana do século XVI ficará sob tutela da Direção Geral do Patrimônio Cultural, junto ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa, também uma histórica residência jesuíta em Viseu. Excepcionalmente, para um maior acesso do público, a relíquia ficará em comodato com o Memória Comum – Associação, que por meio do Projecto Patrimônio a exibirá nas apresentações do Museu do Falsa em sua edição de 2022.

Fundação Anchieta – LEENA
Divisão de Patrimônio

Consultar _ M301 - tesaurus Anchieta LEENA.pdf

Esta incorporação, no acervo do Museu do Falso, teve Apoio

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