O “statement” final d’O Carvalho-Alvarinho (Quercus robur) do Parque Aquilino Ribeiro

AUTOR: O Carvalho-Alvarinho (Quercus robur) do Parque Aquilino Ribeiro (Viseu)
TIPOLOGIA: Som & Poesia
DATA: 18/11/2020 (ou poucos dias antes…)
N.º DE CATÁLOGO: #046
N.º DE INVENTÁRIO: MF.2021.019
PROVENIÊNCIA: Miguel Soares

Contextualização

Este é o último statement d’O Carvalho-Alvarinho (Quercus robur) do Parque Aquilino Ribeiro em Viseu. Carvalho-Alvarinho que era, porventura, um dos espécimenes arbóreos mais conhecidos da cidade e de todos aqueles que alguma vez houvessem visitado a cidade.

Há já alguns anos que ameaçava tombar e desaparecer e de 18 para 19 de novembro de 2020, o Carvalho-Alvarinho finalmente caiu, tendo sido notícia. De facto e por esta peça sonora, sabemos que não caiu: deitou-se!

Este foi o discurso final do carvalho antes de se deitar. A música ou o ambiente sonoro que acompanha o discurso é a marcha fúnebre que as árvores da região entoaram honrando a partida de um dos seus. Tal como a ciência reconhece que as árvores produzem uma boa parte do oxigénio que respiramos, a ecologia profunda sabe destes sussurros ancestrais que surgem na hora de uma “árvore se deitar”, uma última lucidez que cada árvore oferece para que a alma do mundo possa respirar – a voz da natureza.

“… a linguagem é a voz de ninguém, uma vez que é a voz das coisas, das árvores, das ondas, e das florestas.” (Merleau-Ponty).

Como é que foi possível fazer um registo sonoro deste acontecimento? Nietzsche sugere que “a verdade do mundo é melhor reflectida no nível Dionisíaco de pura imersão estética numa essência fundamental e indecifrável da experiência.” Esta imersão estética/relacional, ou estado poético enquanto “ambiente fenomenológico”, é essa abertura fundamental que possibilita o contacto com estas regiões de experiência partilhada com o mundo natural: para o corpo sensível, todos os fenómenos são animados (estão vivos) e solicitam activamente a participação dos nossos sentidos envolvendo-nos numa relação de imersão num horizonte fenomenológico tão vivo quanto nós; a um nível mais primordial da experiência corpórea-senciente, damo-nos conta de uma paisagem expressiva, gestual, sonorizada, um mundo que fala!

O corpo-consciência comporta a capacidade de captar as mínimas nuances do tangível, podendo modelar e traduzir/transmutar qualquer textura sensível ou inteligível. Esta capacidade parece estar próxima da senciência fundamental do nosso ser. O corpo-consciência reverbera o mundo através de afectos e fluxos de intensidade organísmica, fá-los circular e transforma-os uns nos outros. Neste sentido, o corpo revela-se enquanto receptor/espelho/caixa de ressonância das forças que animam o mundo, e tradutor metamórfico que transduz os fluxos de intensidade organísmica – afectiva, sensorial, motora, relacional, atómica e molecular, etc. – em visões, símbolos e imagens, “vozes surdas”, pensamentos e narrativas.

Através de um ritual coletivo de sintonização e imersão estética na experiência dos momentos finais do Carvalho, foi possível escutar com o corpo imerso na alma do mundo e traduzir a experiência através de som e palavra.

A imersão estética enquanto experiência sensório-motora, um sentir, um intuir, uma sensitividade: como se a afectividade fosse aprimorada e rarefeita, restando uma sensitividade que pre-sente sensualmente a presença não manifesta que ecoa nas formas dos fenómenos manifestos – a inteligibilidade do invisível, ou o “eco do outro lado do silêncio”.

Neste registo sonoro-poético encontram-se inscritas sensações, emoções, sentimentos, vislumbres, olhares, perspectivas, sensibilidades, histórias, narrativas, segredos, mistérios, fragrâncias, … devires.

[O “statement” final do
Carvalho-Alvarinho do Parque
Aquilino Ribeiro, em Viseu]

Usei as sombras para compor os meus silêncios

Uso agora as palavras para compor a minha ausência

Nunca gostei das palavras fatigadas de informar

Entendi bem o sotaque das águas

Transcrevi para fagote o canto dos vermes

Cultivei um respeito desmedido

pelas coisas desimportantes

e pelos seres desimportantes

Prezei insetos mais que aviões

Prezei a velocidade

das formigas mais que a dos homens

Tenho em mim um atraso de nascença

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos

Tenho abundância de ser feliz por isso

Fui um apanhador de desperdícios:

Amei os restos

como o fazem as boas moscas

Embebedei-me com a prosa dos rios

fiz amizade com borboletas

e envaideci-me sempre que era nomeado para o entardecer dos pássaros

Gosto de usar palavras que ainda não tenham idioma

Queria ser lido pelas pedras

Escrevi apenas o rumor das palavras

e com isso compus os meus silêncios,

que por vezes se confundiam com as fontes e o orvalho

No chão da minha voz habita o Outono

Sobre o meu rosto veio dormir a noite

Deito-me finalmente no chão

na esperança de ouvir as origens da terra.

Esta incorporação, no acervo do Museu do Falso, teve como Parceiro Institucional

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