Isqueiro e Relatório

AUTOR: Desconhecido
TIPOLOGIA: Relatório
DATA: séc. XXI
N.º DE CATÁLOGO: #037
N.º DE INVENTÁRIO: MF.2021.010
PROVENIÊNCIA: José Pedro Pinto

Contextualização

Relatório Provisório – Processo 34978#19.22
Ocorrência Fonte do Arco | Sequência

DESCRIÇÃO
Estrutura arquitetónica em forma de círculo com 5m de diâmetro, localizada à entrada da Rua do Arco, Viseu, na descida do Teatro Viriato em direção à feira semanal. O acesso pedonal é feito por uma escadaria à beira da estrada, e no centro do perímetro oposto, ergue-se um chafariz com 4m de altura.

Do lado esquerdo do perímetro há um gradeamento de forma ogival, que bloqueia a passagem para uma pequena jaula 2×2 metros, cuja rochosa parede de fundo destoa acentuadamente das rochas que formam as restantes paredes da Fonte.

Do lado direito da Fonte, há uma porta de madeira maciça, com inscrições marcadas a tinta branca. Análises à tinta indicam tratar-se de Barbot Infinity Matte branca. Registos fotográficos do acervo turístico deixado por ████████ ao Município evidenciam a existência das inscrições em 1904, 16 anos antes da fundação do Grupo Barbot. Essa aplicação de uma nova camada de tinta – meticulosamente sobreposta à antiga ao ponto de a tornar imperceptível -, está sob investigação, numa tentativa de identificar os responsáveis, suas motivações e momento de ação. A Fonte é, desde Novembro de 2017, foco de ininterrupta vigilância vídeo, termal e de atividade radioactiva.

A Fonte da Rua do Arco é seca. Análises subterrâneas GPR (Ground-Penetrating Radar) realizadas na área ao redor não revelam a existência de qualquer canalização a desembocar na Fonte, pelo que se entende que terá sido construída com um propósito puramente estético. Há vários registos comprovados de água a sair das duas torneiras do chafariz em abundância, fenómeno oficialmente atribuído a lençóis freáticos sob o terreno, apesar de ter sido várias vezes verificado em alturas de seca intensa – tornando a Fonte num particular ponto de atração para os habitantes locais. A possível relação da ocorrência dessas descargas de água com o registo simultâneo de 327 casos de █████-███ na zona da Rua do Arco em 200█ está atualmente a ser investigado.

Os mesmos estudos GPR comprovaram a já assumida existência de túneis subterrâneos que desembocam nas duas reentrâncias: a porta do lado direito e a jaula do lado esquerdo.

HISTÓRIA
É possível localizar precisamente a origem histórica da Fonte. No tratado “████████████ ████████████” datado de 15██ é feita menção explícita à Fonte da Rua do Arco como “o muy belo Fontanário que embelesa a transitada passagem para os campos da afamada feira Vizeense”. Em levantamentos arquitetónicos da cidade datados do ano anterior não há nenhuma menção à Fonte e o espaço ocupado por ela é notavelmente desprovido de referência num mapeamento que é, de resto, notavelmente minucioso.
É portanto de concluir que a construção da Fonte terá ocorrido durante o ano de 15██. A falta de registos claros sobre a construção e seu autor não será de espantar, dada a distância da data e a perda inevitável de registos para o tempo. O chafariz central é uma construção posterior, instalado em 1741, adornado com motivos patrióticos e religiosos típicos da época. Não há qualquer indicação de que tenham sido colocados para ocultar, tapar, ou impedir a passagem a qualquer elemento da fachada original.

PROTOCOLO DE CONTENÇÃO
Até ao momento, a presença da Fonte da Rua do Arco não demonstrou qualquer efeito adverso ou favorável à sociedade na escala local, da cidade ou do país (excepto quando ativamente provocado – ver “Segunda Incursão” neste relatório), pelo que não se considera necessária a implementação de qualquer Protocolo de Contenção além da referida vigilância ininterrupta. Estão atualmente a decorrer investigações para determinar se tal se deve a uma verdadeira inação da Fonte, ou a uma atividade de tal modo ponderada e abrangente que os seus efeitos sejam vulgarmente tidos como “causas naturais”.

PRIMEIRA INCURSÃO
A primeira incursão nos túneis da Fonte aconteceu a 01 Março de 2018. Para evitar chamar a atenção dos residentes, foi instaurado desde final de Janeiro um corte das ruas circundantes e iniciadas várias escavações na zona sob o pretexto de “achados arqueológicos”. A cooperação não-participante do Pólo Arqueológico de Viseu foi obtida a esforço, requerendo a intervenção direta do Administrador.
A primeira escavação teve lugar sobre a jaula do lado esquerdo. Como esperado, a 3m de profundidade a escavação desembocou num túnel estreito, ziguezagueante, de forma ogival. A primeira equipa de reconhecimento foi constituída com os agentes Costa e Antunes. O fracasso da incursão e a perda de dois agentes promissores foi fruto do facilitismo e indolência do ex- Supervisor responsável pela operação, e o sucedido foi rapidamente abafado internamente.

SEGUNDA INCURSÃO
A segunda equipa de reconhecimento recebeu a informação de ser a primeira a entrar no túnel. Composta pelos agentes SCP Sabrosa, Melo e Dias, liderada pelo Furriel Nunes, a incursão teve início às 11:13h de 13 de Junho 2018, novamente sobre o túnel do lado esquerdo.

Todos os agentes foram equipados com capacetes com sistema de comunicação e de gravação e transmissão de som e imagem. O Furriel Nunes e o agente Sabrosa foram instruídos para seguir na frente com um avanço de 100m em relação aos agentes Melo e Dias, que a eles estavam amarrados com uma corda. A equipa da dianteira recebeu ordens para manter a todo o momento um relato oral detalhado do interior do túnel. O Supervisor responsável pela missão foi o Supervisor Pinto, que ficou instalado num quartel provisório do lado de fora do túnel, a receber o relato e a transmissão audiovisual dos quatro capacetes.

Segue-se a transcrição das porções relevantes dessas comunicações:

Nunes: Estamos 100m dentro do túnel, Supervisor. Melo, Dias, podem iniciar a marcha, tentem acompanhar o nosso ritmo.
Melo: Entendido, a avançar.
Nunes: Nada de particularmente relevante a relatar, Supervisor. As paredes e o chão são arenosos, parece um túnel normal. Excepto a forma estranha do tecto, ogival. E a forma do túnel em si.
Pinto: Registado, Furriel. Qual é a forma do túnel?
Nunes: Cheio de curvas. Quem escavou isto devia estar totalmente bêbedo. Sente-se alguma inclinação, parece que estamos a descer.
Pinto: Registado, Furriel. Se houver alguma alteração na forma do túnel, por favor relate.
Nunes: Só uma pequena alteração, Supervisor.
Pinto: Sim?
Nunes: Dois pares de pegadas no chão. Assumo que a sobrepreparada “primeira incursão” neste túnel é também uma missão de resgate?
Pinto: Podem prosseguir, Furriel.
(…)
Nunes: Estamos 350m dentro do túnel. A inclinação acentuou-se um pouco. Continuamos a fazer curvas apertadas a cada 5m, é difícil ver o que está para lá de cada uma delas. Porque raio é que construíram um túnel assim?
Pinto: Registado, Furriel. Podem prosseguir.
(…)
Nunes: Estamos 600m dentro do túnel. O acentuar da inclinação obrigou-nos a abrandar a marcha, estamos praticamente a cair. Nos últimos 100m devemos ter descido pelo menos 30. Supervisor, acho que devíamos voltar para trás e regressar com equipamento de escalada.
Pinto: Regstado, Nunes. Vamos prosseguir mais um pouco, o GPR diz-nos que estão próximos de um alargamento do túnel, a inclinação deverá estabilizar daqui a 270m.
Nunes: Também tenho que dizer que não estou a gostar nada do musgo nas paredes, Supervisor. Parece que estamos a aproximarmo-nos de água. O Sabrosa já me tinha dito que estava a ouvir água, por volta dos 400m, mas não lhe dei atenção.

O registo audiovisual dos capacetes do agente Sabrosa e Furriel Nunes não revela qualquer comentário do agente Sabrosa por volta dos 400m – ou antes, ou depois. Também não revela qualquer tipo de musgo nas paredes do túnel, que mantém o mesmo aspeto rochoso inicial.

Pinto: … Sabrosa, é possível que o teu microfone tenha algum problema, bateste com ele nalgum lado? … Sabrosa?
Nunes: Peço desculpa, Supervisor, o Sabrosa… entretanto teve que sair.
Pinto: … sair? Furriel Nunes, o que queres dizer com ‘sair’?
Nunes: A menina dele, sabe como são estas coisas… Eles não têm passado muito bem, ele teve que ir até ela.
Pinto: … Furriel, ir até ela como?
Nunes: Ela estava aí, por volta dos 500m… eles tiveram que subir.
Pinto: Nunes, subir como? Porque é que não relataste isto quando aconteceu?
Nunes: Sabe como é, Supervisor, estamos numa missão… não quis estar a relatar o meu amigo. Digo-lhe agora porque estou a ficar com bastante receio da vegetação nas paredes, já nem parece musgo, e queria pedir-lhe se podemos voltar para trás.

O registo da transmissão vídeo do capacete do Furriel Nunes continua a não revelar qualquer indício de musgo ou outra vegetação nas paredes rochosas do túnel. O registo da transmissão do capacete do agente Sabrosa continua, como desde o início da incursão, a mostrar o Furriel Nunes, de costas, a avançar pelo túnel. O cambalear da câmara do agente Sabrosa é mais irregular que no início da incursão.

Pinto: Agentes Melo e Dias, os agentes Nunes e Sabrosa foram comprometidos. Ignorem a distância de segurança, avancem imediatamente a toda a velocidade até à posição deles. Mantenham as armas preparadas e não hesitem em usá-las se se sentirem ameaçados.
Melo: Entendido, Supervisor Pinto.

O registo da transmissão vídeo dos capacetes dos agentes Melo e Dias mostra-os a acelerar a marcha. Os capacetes do Furriel Nunes e agente Sabrosa mostram-nos a prosseguir, lentamente. O cambalear da câmara do agente Sabrosa é particularmente acentuado, passando largas porções do vídeo virada totalmente para o tecto ogival do túnel.

Os agentes Melo e Dias demoram cerca de 23 minutos a percorrer os 100m que os separam do Furriel Nunes e agente Sabrosa, justificados pela crescente inclinação do túnel e constantes curvas apertadas. Ao chegarem ao fim da corda, deparam-se com a ponta cortada, e um isqueiro preto no chão.

O registo da transmissão vídeo dos capacetes do Furriel Nunes e agente Sabrosa mostra-os a continuar a descer o túnel. O cambalear de ambas as câmaras é mais intenso, passando ambas largas porções do vídeo viradas totalmente para trás. O som dos passos dos agentes, por esta altura, deixa de ser registado, apesar de se ouvir o som ténue de água a correr.

Pinto: Melo, Dias, abortar missão. Voltem para trás, tragam o isqueiro. Repito: abortar missão, voltem para trás o mais rapidamente possível e sem desvios.

O registo da transmissão vídeo dos capacetes do Furriel Nunes e agente Sabrosa mostra-os a
ontinuar a descer o túnel, agora totalmente a pique. Por volta dos 870m, as paredes começam a ficar progressivamente mais afastadas e iluminadas por uma luz branca ondulante. O registo torna-se progressivamente mais ininteligível pelo intensificar dessa luz branca, e passados 4 minutos desde que ela se começou a notar, a imagem captada pelas câmaras é totalmente branca. O som de água a correr ouve-se com intensidade crescente.

Nunes: Costa! Há quanto tempo, pensei que tivesses voltado para casa. Dás-me lume? Acho que deixei cair o isqueiro algures nestes malditos túneis.

A intervenção do agente Nunes foi o último som registado além do da água a correr, com eco crescente até estabilizar por volta dos 1330m. O vídeo manteve-se branco durante as restantes 38h de bateria do equipamento de captação e transmissão, exceptuando o registo de uma sombra escura em forma de estrela, que atravessou a imagem uma vez por volta das 29h do vídeo, num movimento rápido e cambaleante. Não há registo de som associado ao movimento.

RECOMENDAÇÕES FINAIS
Até indicação contrária, as escavações na zona da Fonte do Arco estão proibidas. Os buracos das escavações foram cobertos e a rua reaberta ao trânsito normal. Os registos dos agentes Nunes, Melo, Dias e Furriel Costa foram limpos e classificados “Apenas para Supervisores”. As respectivas famílias e pessoas próximas dos ex-agentes foram administradas com Amnésticos de Classe G e estão a ser monitorizadas para qualquer tipo de comunicação infra-██████. O isqueiro preto recuperado pelos agentes Melo e Dias está atualmente sob investigação. Este relatório será atempadamente actualizado com as respectivas conclusões.

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